Lugar da Escrita - Público 17/11/11

Perguntaram-me, outro dia, qual era o lugar onde me sentia mais inspirado para escrever. Respondi, sem hesitar, que esse lugar é Lisboa, no quinto andar de um apartamento do século passado, na baixa Pombalina. Este lugar, ainda que o sinta como passageiro, reúne em si o modesto e simpático sossego de ser o meu lar. Paredes brancas, janelas e soalho de madeira, alguns quadros, livros, filmes, música e sapatos. A casa ocupa uma esquina e as janelas onde me encontro estão apontadas para norte. Um dia um fotógrafo amigo meu disse-me que, de todos os quartos na casa, preferia aqueles que estão virados para norte, por causa da luz – esta é mais constante ao longo dia, se nos chegar vinda do norte. Desde então, durante o dia, escolho sempre trabalhar com o corpo e a mente apontados para esse ponto cardial. 

Tal como na semana passada, escrevo palavras para serem consumidas no dia seguinte e não consigo resistir à tentação de repetir e vaticinar que amanhã, ou melhor, hoje (quinta-feira), o livro que recolhe 3 anos de escrita para esse pequeno espaço, aqui no P2, terá o seu lançamento oficial. Digo pequeno, não com o intuito de diminuir esse lugar, muito pelo contrário! Foi aqui que ganhei o gosto pela prosa, conversa fiada que, quando escrita, adquire um valor transcendental, ainda que descartável. Estou convencido que a crónica dura tão-só até ao próximo jornal, ainda que tal convicção já tenha sido posta em causa várias vezes, por anónimos que me abordam na rua, mostrando um carinho especial por esta ou aquela crónica. Talvez por isso mesmo deixei que algumas fossem parar agora a este livro…

Lembro-me perfeitamente quando um tal senhor da Editorial Caminho me telefonou, numa voz pausada, ligeiramente rouca, e se fez anunciar. Daqui fala Zeferino Coelho. A conversa foi curta, eu devia estar nervoso, pois nem perguntei o que lhe levou a procurar-me. Combinámos encontrarmo-nos algumas semanas depois para um café e conversamos. Ele queria conhecer o personagem – eu.  Da conversa que tivemos numa café no bairro de Campo de Ourique pouco há para contar. Essencialmente falei eu; contei-lhe o que me trouxe até Lisboa e como nasceram as crónicas de Um dia Qualquer.

Estas crónicas nasceram exactamente da mesma forma que o livro “Estórias de Amor para Meninos de Cor”. Certo dia, recebi um telefonema do jornal O Público. Uma voz feminina, seguro e prática – Bárbara Reis – fez-se anunciar, perguntando-me, de pronto, se estava interessado em escrever crónicas. Na altura, a minha escrita era bastante mais indisciplinada, as palavras que até então havia escrito serviam o único propósito de me aproximar dos músicos e não tanto daqueles que estão familiarizados com o silêncio das palavras escritas. Quase que recusei, mas movido pela curiosidade e necessidade de encarar novos desafios, acabei por lhe enviar alguns textos em tom de exemplo. Daí estar aqui hoje, longe de me sentir um escritor ou cronista completo, mas crente de que o lugar que escolhi para escrever me colocou nessa senda. E esse lugar é Lisboa.